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domingo, 17 de novembro de 2013

As vantagens da solidão





domingo, 17 de novembro de 2013
MARTHA MEDEIROS -

Zero Hora 17/11/2013

Sozinha para sempre, nem pensar. Mas há que se valorizar as vantagens de se passar um tempo desacompanhada. A solidão não será um bicho de sete cabeças se você tiver bom humor e souber se divertir com o momento de entressafra.

Por exemplo, sozinha você não mente, não finge, não se faz de sonsa. Ninguém é mais autêntico do que um solitário. Não precisa fazer de conta que está gostando da conversa, não precisa inventar desculpas para ir embora, não precisa dizer que está tudo bem quando está tudo bem nada.

Sozinha você não comete gafes. Não esquece o nome da tia do seu marido, não confunde o sobrepeso da prima dele com gravidez, não pergunta pela mãe do melhor amigo dele. Não te contaram? Está presa por assalto a mão armada.

Sozinha você não dá vexame por ter bebido demais, você não ameaça tirar a roupa no final da festa, não se insinua para o namorado da filha dos outros. Sozinha você provavelmente ficou em casa no sábado e não termina a noite sendo o trending topic do twitter.

E não bate-boca, não faz fofoca, não fala alto demais, não provoca ninguém. Sozinha você é perfeita.

Já que um jantarzinho a dois está fora de cogitação, não julgará a maneira como seu amado maneja os talheres, o jeito que ele dança, quanto deixa de gorjeta, a miséria do seu vocabulário, aquela insistência dele em cortar o cabelo numa espelunca do centro. Quantas vezes a gente se arrepende por ter aberto a boca demais? Por ter se intrometido onde não devia? Sozinha, você é uma lady.

Sem relação estável com ninguém, você não cobra fidelidade, não reclama da bagunça, não faz perguntas repetitivas e indiscretas. E ao viajar só, longe das manias de um acompanhante, você não faz a louca diante de uma roubada, não inventa desculpas para fugir de uma indiada, não ameaça fazer as malas e voltar sozinha – já está sozinha mesmo.

Você praticamente fica sem o que contar para o padre no confessionário. Você não peca.

Acabou-se a fama de chegar sempre atrasada. Ou de ser pontual demais. Ou de furar encontros. Você não chega nem sai, você está fora do circuito.

Sozinha você economiza batom, lingerie, depilação, cabeleireiro, academia. Em compensação, gasta demais em croissants, biscoito recheado, bombons de licor. Quem é que vai se importar se você engordar dois ou três quilos?

Sozinha você é a maluca que dança no meio da sala, a demente que fala com as plantas, a artista que canta alto no chuveiro, a crente que faz pedidos para a primeira estrela que surge no céu. Você pede o quê, mesmo? Que essa solidão abençoada não seja vitalícia: que dure no máximo até o fim de novembro. Deus a livre de não ter em quem dar um beijo no Réveillon.

http://beneviani.blogspot.com/2013/11/martha-medeiros-as-vantagens-da-solidao.html?spref=tw

domingo, 10 de novembro de 2013

A time for us - Nino Rota


O pezinho que flutua na hora do gozo


10/11/13 - 


Ou Amor é cinema.

Reparo no pezinho dela suspenso no ar e projetado na parede do quarto. Mesmo com os sussurros, a imagem do pezinho na parede é cena de filme mudo. Em preto & branco. Aquele pezinho esquerdo suspenso mexe como quem flutua embriagadamente para o gozo.
Comoção, epifania, arrebatamento, poesia barata, esteticismo de quinta, podolatria platônica do pé que deveras possui na cama… Chame como quiser o que senti e aqui trago do instante.
O certo é que o pezinho flutua e me diz mais dela naquele momento do que as próprias palavras, onomatopeias dodecafônicas e gemidos bêbados.
É quase sempre bonita a dança dos pés na hora do acasalamento. Parece que os pés ganham vida própria e particularizam por lá um outro gozo ou um gozo a mais.
Quando as almas não se entendem, acrescento enxeridamente aos versos do Bandeira, são os pés que comunicam tal desfecho.
Aquele pezinho único refletido na parede, porém, valeu por dez anos de cinemateca.
Não trato de fetiche ou desejo daqueles que vivem a nadar no mosaico dos bares e recintos em busca de belos pés, categoria na qual fui, outrora, um militante contumaz.
Tampouco me refiro a uma perversão sexual ou o gesto de um devoto que se ajoelha para beijar os pés de uma dama.
Poderia até citar o grande livro do poeta idem Glauco Mattoso: “Manual do Podólatra Amador”. Também não é o caso. Poderia falar como o pé é protagonista no cinema de Tarantino (foto). Não convém no assunto.
É apenas um pezinho -somente o esquerdo consegue aparecer na parede no momento- que flutua e busca no espaço inventar um chão para nosso gozo.

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

sábado, 9 de novembro de 2013

na hora exata de te amar…



havia qualquer coisa de santa,
*imagem: Vanessa Ho

intenso
só o sabor que eu sinto
e só eu sinto
só o doce e doce
balançar
deslizar
escorregar
tocar
no corpo
na pele
com os dedos
passear
inventar
melar
transbordar
com a boca
chamar
sussurrar
gemer teu nome
na hora exata de te amar…


- Cau Lanza -


http://eraumavezlaranja.wordpress.com/

Tara




*imagem: Tumblr


não deixe o escuro esconder,

as curvas de teu vestido andante

quero ver -te nua, como antes

nunca vi

não teime o meu olho em te espiar

pelo canto da imagem e eu, louca

quem sabe até a voz pareça rouca

e eu pense que estive a sonhar

e não tente o sorriso disfarçar

o gosto da tua boca exata

e comprimindo o que falta

em mão

e nessa hora eu percebo sonho

ao ver o teu sorriso tímido

e meu olhar percorre o decote intímo

e descubro o que é paixão

é pessoal e puro,

o batimento

parece que o coração atento

sai pela boca qualquer hora e vai

percorre a distância que separa

e vai até aí jogar em tua cara

a tara que você exala em mim

é quando a conversa chega ao fim.



Mariana Gouveia.




http://eraumavezlaranja.wordpress.com/

Viaje dentro de Ti




Pudesse a árvore vagar e mover-se com pés e asas não sofreria os golpes do machado nem a dor de ser cortada,


Não errasse o sol por toda a noite, como poderia ser o mundo iluminado a cada nova manhã?


E se a água do mar não subisse ao céu, como cresceriam as plantas regadas pela chuva e pelos rios?


A gota que deixou seu lar, o oceano, e a ele depois retornou, encontrou a ostra a sua espera e nela se fez pérola.


Faltam-te pés para viajar?


Viaje dentro de ti mesmo, e reflete, como a mina de rubi, os raios de sol para fora de ti.


As jornadas trazem amor e poder de volta para você.


Se você não puder ir a lugar algum, mova-se nos caminhos do Ser,


Eles são como raios de luz, sempre mudando, e você muda quando os explora.


Uma viagem como essa pode transmutar teu pó em ouro puro,


Ainda que a água salgada faça nascer mil espécies de frutos, abandona todo amargar e acidez e guia-te apenas pela doçura,


E o Sol de Tabriz que opera todos os milagres: toda árvore ganha beleza quando tocada pelo sol.



Rumi

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A VERDADE E A BELEZA JUNTAS

TONY BENNETT E BILL EVANS – 


por  em 13 de ago de 2013 
Há quase 4 décadas, um dos maiores cantores do mundo e o pianista mais sofisticado do jazz se encontraram para gravar álbuns que pouca gente ouviu


EvansBennett.jpg
É começo de 1980 e Tony Bennett está em uma cidade minúscula perto de Austin, no Texas, aonde irá se apresentar. O telefone toca e do outro lado está o pianista Bill Evans. “Eu fiquei surpreso com o fato dele conseguir me encontrar por lá” – conta Tony – “e disse ‘Bill, por que você ligou?’ Ele me respondeu em uma voz que parecia desesperada e cheia de desencanto: ‘Eu queria te dizer uma coisa: Só pense na verdade e na beleza. Esqueça todo o resto. Concentre-se apenas na verdade e na beleza. Isso é tudo’”.
Foi a última vez que eles se falaram e pouco tempo depois, em 15 de Setembro de 1980, Bill estava morto, aos 51 anos de idade.
Eles tinham se encontrado pela primeira vez em 1962, nos bastidores de uma festa em torno do jazz oferecida pelo Presidente Kennedy.
Quase uma década depois, Bennett estava perdido.
Era um tempo de ocaso das grandes vozes.
Em 1970, ele foi obrigado por sua gravadora a tentar um material mais comercial, em um esforço desesperado para elevar suas precaríssimas vendas.
Tony topou, mas reagia tão visceralmente às canções que empurravam para ele que vomitava depois de sair do estúdio.
Decidido a escolher seu caminho artístico, fundou seu próprio selo, o Improv Records - e foi com a independência de dono que resolveu gravar acompanhado apenas pelo pianista.

Houve dois encontros: The Tony Bennett/Bill Evans Album (1975 - lançado em um acordo quid pro quo com o selo de Evans, Fantasy) e Together Again (1976).

Tony Bennett & Bill Evans Together Again.jpg
Nenhuma preparação antecipou a entrada no estúdio. Bill e Tony escolhiam as canções e iam gravando na medida em que surgiam naturalmente.


Quase que para se vingar do que lhe tinha sido imposto anteriormente, Bennett escolheu canções pouco conhecidas, fugiu dos standards, selecionou coisas que quase ninguém conhecia além dos dois artistas.

Mas os ventos não estavam a favor da grande música.
Comercialmente, os álbuns nunca aconteceram.
Aliás, Evans era - e permanece até hoje - o pianista mais sofisticado do universo do jazz - e nada afasta mais rapidamente o grande público do que qualquer insinuação de sofisticação (o que enobrece ainda mais a iniciativa de Bennett, nesta empreitada acumulando as funções de intérprete e de empresário dono de gravadora).

A empresa do cantor – sem acordo com nenhum grande selo, sem equipe de vendas e de marketing - não conseguia distribuir seus LPs e faliu.
Se no plano econômico a situação era ruim, no plano pessoal não era nem um pouco melhor.
Evans e Bennett estavam perdendo suas guerras para as drogas.
Evans por vezes tocava o piano com apenas uma mão – a outra paralisada por incessantes injeções de heroína.
Pouco antes do último telefonema do pianista, Bennett – sem gravadora, sem empresário, com poucos shows agendados e perseguido pelo Imposto de Renda – quase morreu de uma overdose de cocaína em 1979.
Foi quando ele chamou seus filhos Danny e Dae para o socorrerem.
Funcionou.
Com a visão mercadológica da família, Bennett voltou a gravar as músicas que queria para um grande selo. Sinatra, por sua vez, estava de volta ao hit parade, puxando os demais vocalistas. “New York, New York” estava estourando na voz de Frank - por sinal, o homem que havia dito que Tony era o melhor cantor em atividade.
Os grandes intérpretes estavam gradualmente reencontrando seu público.
Tony conseguiu até a medalha de honra da notoriedade: aparecer no desenho animado “Os Simpsons”.
Depois disso, veio seu namoro com a geração MTV e a era dos grandes tributos – CDs dedicados a Sinatra, Billie Holiday e Fred Astaire. Elvis Costello e k d Lang dividiram os microfones com ele – antecipando os duetos de seus lançamentos mais recentes.
Em face de tudo o que veio depois, os encontros do cantor e do pianista permanecem como a lembrança de um período negro para os dois artistas.
Ninguém estava ouvindo na época e eles, corajosamente, decidiram fazer música um para o outro.
Mesmo os críticos não se encantaram com o material. Argumentam até hoje que a potência vocal de Bennett não se harmoniza com a delicadeza de Evans. Mas o fato é que as sessões passaram pelo crivo mais rigoroso que pode existir: os ouvidos dos dois participantes.
E, digam o que disserem, estes álbuns são cápsulas de – como diria Evans - verdade e beleza.
E a verdade e a beleza resistem ao tempo e à indiferença.
http://lounge.obviousmag.org/renzo_mora/2013/08/tony-bennett-e-bill-evans-a-verdade-e-a-beleza-juntas.html

CHUVA...



CHUVA...

"Embora lave o medo
que há do fim
a chuva apaga o fogo
que há em mim
Ouço a voz de quem
me quer tão bem
E fico a ver se a chuva
a ouvirá também..."

Foto: Chris Steele Perkins
Banda - Ornatos Violeta / Música: Chuva -> http://ow.ly/qAbik

Body and Soul - Tony Bennett & Amy Winehouse -