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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fernanda Torres - plenitude 45 anos

Em três anos tudo mudou, e agora atriz fala da plenitude que alcançou aos 45 anos
Texto por Carol Sganzerla Fotos Murillo Meirelles

Murillo Meirelles

Em três anos, Fernanda Torres perdeu o pai, ganhou Antônio, repensou o casamento. Agora, estreia programa inédito e fala, sem querer, da plenitude que alcançou aos 45 anos

Faz dois meses que Fernanda Torres não chega em casa a tempo de colocar o filho caçula para dormir. Tem saído antes das dez da manhã e voltado após as 11 da noite. Nem no Dia das Crianças as gravações deram uma trégua. O jeito foi perder o compromisso em família e deixar que Valéria, a babá que carinhosamente chama de “sócia”, acompanhasse Joaquim e Antônio ao hotel-fazenda programado para o feriado.
Dali quatro dias, enfim, poderia se esbaldar com as crias logo que concluísse as filmagens da série Amoral da História, que estreia em novembro, no Multishow. Baseados nas fábulas do escritor Millôr Fernandes, os episódios carregam muito da concepção e da direção de Fernanda em parceria com a Conspiração Filmes. Para protagonizar um dos capítulos, aparece caracterizada de barata. Durante as duas horas de entrevista à Tpm, hipnotiza esta repórter com suas antenas incessantes e seu humor inteligente, ingrediente fundamental de sua carreira.
“Os 40 anos são uma idade de muita completude, ao mesmo tempo em que dá para enxergar a curva da vida. Você entende que o tempo passa, e passa rápido, então é uma época de muita felicidade e compreensão da mortalidade. Porque, aos 20 anos, você é imortal”
Tida como uma das melhores atrizes do cinema, da TV e do teatro brasileiros, Fernanda tem bagagem, talento e esperteza para escolher seus trabalhos a dedo. Nunca se prendeu a contratos com emissoras, tampouco é lembrada por um único personagem. Aprendeu com os pais a conquistar independência profissional, especialmente no teatro. Na década de 90, Fernanda dividiu o palco com a mãe, Fernanda Montenegro, em duas situações: The Flash and The Crash Days, de Gerald Thomas, e Da Gaivota, de Daniela Thomas.

Murillo Meirelles
Fernanda veste: Body Rosa Chá, brincos e pulseira Alberta, meia calça Acervo Produção, anel Acervo Pessoal
Fernanda veste: Body Rosa Chá, brincos e pulseira Alberta, meia calça Acervo Produção, anel Acervo Pessoal

Em 2004, travou parceria com o irmão no filme Redentor, que ela roteirizou e ele dirigiu. Nas memórias de infância, Cláudio Torres não se esforça para lembrar “da Nanda se fantasiando em casa com os figurinos da mãe”. Chama a atenção, portanto, o pouco que se fala, nesses quase 30 anos de carreira, da forte relação dela com o pai, o ator e diretor Fernando Torres, que morreu em 2008 por enfisema pulmonar. “Quem me ensinou a ser mãe foi meu pai. Ele vinha de uma família bem brasileira, mineira, maranhense com índio, em que as crianças são ‘a casa’. Me levava para pescar em Itaipu, comprava boneca, montava aeromodelismo. Sou muito mais meu pai como mãe do que minha mãe”, analisa.

Família, família

A perda do pai tornou mãe e filhos mais cúmplices, agora zelam mais um pelo outro. Fernanda vê o lado bom: “Sempre tive uma posição de filha, depois da morte do papai fiquei mais adulta”, admite ela, que viu a doença progredir. “Achava que a morte dele seria uma coisa natural. Mas doença e morte não têm nada a ver, é incompreensível a pessoa não existir mais, não se encontrar em nenhum lugar físico”, divaga. Dois anos depois, ela ainda digere essa ausência. Aos 45, diz experimentar a plenitude e discorre sobre o tema em tom sutilmente melancólico.
Fernanda anda apegada a esse momento de vida, no qual se vê preenchida pelos filhos, pela casa, pela família, pelos trabalhos que concretiza. “Os 40 anos são uma idade de muita completude, ao mesmo tempo em que dá para enxergar a curva da vida. Você entende que o tempo passa, e passa rápido, então é uma época de muita felicidade e compreensão da mortalidade. Porque, aos 20 anos, você é imortal”, elucida.
“Quem me ensinou a ser mãe foi meu pai. Ele vinha de uma família bem brasileira, mineira, maranhense com índio, em que as crianças são ‘a casa’”
Nessa sua fase “imortal”, já tinha saído da casa dos pais para morar com o jornalista e apresentador Pedro Bial. A educação que recebera, sem amarras, somada aos primeiros salários, possibilitava essa independência. Fernanda aproveitou e foi conhecer o mundo, fincar seus pés em um sem-número de países. Dos 26 aos 30 anos, estabeleceu-se em Nova York com Gerald Thomas, segundo marido, até não se sentir mais parte daquilo.
Voltou sozinha. “Não queria mais viver com uma mala na mão, queria ter uma casa, uma família, trabalho. Foi um momento em que tive medo porque teria que reconstruir a vida que tinha desmontado”, lembra. No retorno, foi acolhida pelos parceiros Luiz Fernando Guimarães e Débora Bloch, e entrou para a peça 5 x Comédia. “Lembro de uma turnê em Brasília que precisávamos nos ocupar para não cair no tédio brasiliense. Fomos correr no parque e, quando vimos, lá estávamos nós andando de caiaque no lago. Fazíamos qualquer negócio para nos divertir”, conta Débora.
“Queria ser a Marisa Monte, que só fala sobre trabalho. Mas ator é mesmo mais chinfrim”
Dona de um talento versátil, além de atuar Fernanda assina colunas nas revistas Piauí e Veja Rio e artigos sobre as eleições na Folha de S.Paulo. “A Nanda tem uma liberdade interna admirável, não tem medo de se arriscar e está sempre inventando novos caminhos”, descreve Débora. Mesmo assim, não joga no time dos workaholics. O ócio, para ela fundamental, é preenchido com aulas de canto, livros, música. Gosta de ser embalada pela rotina, que é por onde recupera o fôlego gasto com períodos ininterruptos de trabalho. Faz dela seu paraíso: toca seu piano “ruim” (“há dois anos toco a mesma música, ‘Sonata ao Luar’, de Beethoven, e continuo errando. Não tenho o dom, mas não importa”), pratica pilates, ioga.
São visíveis a postura e o corpo modelados pela prática. “Achei que depois de dez anos de ioga estaria voando, mas não. Aprendi milhões de coisas, mas ainda paro nas minhas limitações. E, como tenho vida interior, gosto de ficar ali concentrada, com a respiração”, conta ela, que sente falta de correr no calçadão, atividade que tem evitado pelas pontadas sentidas no joelho. Aos 45, portanto, não lamenta o raio X da idade. “Nunca fui saudosista porque nunca fui linda. Se a mulher é um fenômeno, ela vai envelhecer um fenômeno e talvez sinta mais. Mas nunca fui a bombshell”, reconhece.

Fernanda não funciona em tempo limitado. Detesta a ideia de ter que parar de viver para correr atrás da vida. “Quando você é adolescente você tem tanto tempo, e, quando vai ficando mais velha e vai gostando da vida, não tem tempo para nada. É uma injustiça”, opina. Hoje não vê a hora de voltar com o leva e traz das crianças na escola e a logística de criar dois meninos de idades tão distintas: Joaquim, 11, e Antônio, 2 anos e meio. “Quando, no terceiro fim de semana consecutivo, o Joaquim disse que ia dormir na casa de um amigo, achei que era melhor fazer outro, porque aquele ali já estava indo”, lembra, rindo.
Antônio, então, nasceu em 2008, quando ela tinha 42 anos e o casamento com Andrucha Waddington, diretor e sócio da Conspiração Filmes, somava mais de uma década. “Ele é superafetuoso, mas não é um pai que para tudo pelos filhos. Ele tem o ano de trabalho e o mês de férias, em que é pai absolutamente. Foi criado assim”, conta.

Novela da vida real

Murillo Meirelles
Fernanda veste: Blusa Glória Coelho, body American Apparel, sutiã Uni, calça Empório Armani, scarpin Schutz
Fernanda veste: Blusa Glória Coelho, body American Apparel, sutiã Uni, calça Empório Armani, scarpin Schutz

Fernanda aprendeu a ser menos melancólica com Andrucha; ele, a ter uma rotina mais plácida. “Essa minha vida interior, do piano, da escrita, da leitura, ele fica abismado. Mas me ensinou a ir pro mundo”, revela. Apesar dos hábitos distintos – ela é diurna; ele notívago, workaholic, fumante –, foi nas semelhanças que a relação se apoiou. “Temos necessidade de vida própria, uma enorme ansiedade produtiva e uma franqueza bruta com a vida”, descreve a atriz, que hoje mora numa casa e o marido, em outra.
Explica: “Ano passado o Andrucha ficou seis meses filmando e morando sozinho na Espanha. Quando tentamos juntar de novo, nos estranhamos”, comenta. E emenda: “Ele trabalhava em casa, eram pessoas dia e noite, a casa parecia a nave espacial Apollo 13, as quatro crianças de idades variadas [Joaquim, Antônio e os enteados, um com 16, outro com 18 anos], cada um com a sua vida. Realmente precisava. E você não escolhe, a vida vai te empurrando”, esclarece. Passado o furacão, reaproximaram-se.
“Os 40 anos são uma idade de muita completude, de felicidade e compreensão da mortalidade. Porque, aos 20 anos, você é imortal”
Toda essa novela da vida real foi acompanhada pelos sites de fofoca desde os rumores da separação, há um ano. Questiono se isso a incomoda. Fernanda então para, franze a testa, entra em crise. “Porque deveria me incomodar quando me fotografam na rua se estou falando da minha vida pessoal para você? Aliás, não devia ter falado nada disso. Olha que loucura, estamos há horas falando da minha intimidade porque quero fazer as pessoas verem Millôr Fernandes e a moeda de troca é a minha família. Isso é certo? Queria ser a Marisa Monte, que só fala sobre trabalho. Mas ator é mesmo mais chinfrim”, consola-se, sem perder o humor.

http://revistatpm.uol.com.br/revista/104/perfil/fernanda-torres.html

...e agora?



Quase agora, você me chegou. E o peito doeu. O ventre doeu. De te achar bonito, de te querer em beijos, de te saber em mãos. Como se fosse permitido o querer. Em sobressaltos faço a lista dos impossíveis. Alimento meus vazios e confiro portas e janelas: fechadas. Mas há aquela réstia de luz que insiste em dizer: sim. Não sei teu gosto, teu rosto, não conheço tua mão. As frestas. "Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" diz Pessoa. Vou soletrar teu nome e escrevo desejo. Mas em uma língua que não saberás decifrar e tudo cala. À míngua.
Luciana Nepomuceno

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Doce ilusão - Ed Motta



Partituras


Eu ainda não conheci uma mulher que não fosse como uma música, como uma boa música. Porque elas há, como tantas as combinações de notas se podem fazer som.
Algumas músicas – ou mulheres? – são misteriosas, insinuantes, obscuras. Incessíveis, é o que parece antes do momento mágico em que se pode solfeja-las. São aquelas mulheres – ou canções – que arrebatam os órgãos do sentir. Como olhar o olhar de Liz Taylor e não se deixar afundar? Mas não é só naquele escuro cinema que elas ecoam, as obscuras. Estão em esquinas sombrias, estão em bares esfumaçados. Estão nestes lugares que as guardam em véus. Estão.
Há as discretas – canções e mulheres. Elas não costumam despertar, logo nas primeiras aproximações, onde mais básico se sente. São necessárias várias voltas na vitrola para que se dêem a conhecer em esplendor e alcance. São mulheres – ou músicas – que depois de desvendadas são sempre murmuradas. Alguns não as apreciam, queixam-se da simplicidade. Mas, se se tem a sorte ou a persistência de voltar a ela, é como avistar uma miragem – é a mesma? ou já é outra? Ou, ainda, nunca foi isso? E todas as respostas parecem corretas enquanto a melodia se faz carne em quem a aprecia.
Umas mulheres – ou músicas? – são, ainda, em crescente complexidade. Entregam-se. Esquivam-se. Quase se é capaz de cantarolá-las mas, em algum momento, ritmo ou letra se perdem. São reflexos - invertidos e vacilantes – de ilusões vívidas que ecoam no que ouve. São, sempre, sensação mais viva que carne. A elas se volta, sempre, muitas vezes mais, com uma fome encantada de luz e sombra: a completa nitidez é mágica. E, ainda assim, nunca se chega. Não há encontro possível.
Há, mulheres e canções, que ganham sentido apenas quando tocadas, aquelas que se estabelecem na ação, que se espalham tão dentro, cravam raízes de companheira tão alegre, bonita e sólida. Canções e mulheres de verdades simples, vivas como uma frutífera mangueira, generosa em sabor e sombra.
Amar uma canção é como tocar uma mulher. De início, o encantamento. Nunca lhe basta. Tão arrebatador quanto efêmero, os nervos à flor da pele e a vontade de sabê-la toda, intervalos inclusos. Em um depois, depois que vem após várias audições, mas que parece tão agora, imediato, é pele perdendo a cor, a flor sem viço, casca dos dias e das noites iguais. Um esgotamento de ouvir. Já não se consegue sentir de tanto que já esteve. Teme-se que a canção – ou a mulher? – já nada signifique. O antes equilibrado arranjo já soa monótono. Previsível é quem a escuta, porque a quis tanto, mas parece sempre que é a mulher – ou a canção. Retorna-se a ela, ainda e sempre e muitas vezes mais. Mas não é possível trazer o ingênuo deslumbre da primeira audição de volta e ela mulher/som parece cada vez mais tristemente nítida, como se a beleza estivesse no que se esconde. E está. Já não há enlevo, divorciado o ouvido está de quem o chama. Aquelas tais, mulher e canção, acabam por desaparecerem em outra sequência de notas que chegarão, surpreendentes, inéditas, tocantes.
Isso se sucede com todas. Mesmo com as que guardamos em cassestes à caneta indicados. Com nostalgia escuta-se, mas não com amor. Tocam, não o corpo, mas a idéia do corpo. Foram-se. Vão-se todas: mulhermilonga, mulhersinfonia, mulher-quarteto-de-cordas, mulher-concerto, mulher-suíte, mulher-cantata. Vão-se as cançõesloiras, as cançõesmorenas e, mesmo as ruivascanções, intensas, também se vão ao fim de outono.
Mas. E isso é o que há de tão lindo. Mas. Todo dia essa fome de sereias, mítico anseio. Mas. Repito e é aqui que já sei os futuros. Mas. Mas e mais. A canção. Só uma. Ela. E aí o rapaz, menino, homem, esquece-se de ser semideus e já não escuta sereias. Porque, enfim, a canção. Ele tem seu samba. Sua mulher. E, ora vejam, é de uma nota só. E basta.


Rio de Janeiro de manhã

Pena que não tenha o autor das fotos!! Divinas!!








Beijos - LUIZ FERNANDO VERISSIMO




Queria ser um homem moderno, mas tinha alguma dificuldade com o protocolo. Por exemplo: não sabia quem beijava. Quando via aproximar-se uma conhecida do casal, perguntava para a mulher, apreensivo, com o canto da boca: “Essa eu beijo? Essa eu beijo?”. Nunca se lembrava.
Para simplificar, passou a beijar todas. Conhecidas ou não. Quando lhe apresentavam uma mulher, em vez de apertar sua mão, beijava-a. Dois beijos, um em cada face.
– Muito (muá) prazer (muá).
Outro problema era a quantidade de beijos. Já tinha dominado os dois beijos, estava confortável com dois beijos, quando a moda passou a ser três. Um dia, a mulher comentou:
– Não sabia que você era tão amigo da Fulana (o nome verdadeiro não é este).– Beijo todas.
– Quantas vezes?
– Quem está contando?
Às vezes, ele partia para o terceiro beijo e a beijada não esperava. Ou então esperava e ele não dava, e quando ele voltava ela já recuara. Não havia nada mais constrangedor do que oferecer a face para o terceiro beijo (ou o quarto, quando a moda passou a ser esta) e o beijo não vir. Ficar, por assim dizer, com a cara no ar enquanto a mulher se afastava, rezando para que ninguém tivesse notado. O problema da vida, pensava ele, é que a vida não é coreografada.
Aí os homens começaram a se beijar também. Tudo bem. Seu lema passou a ser: se me beijarem, eu beijo. Mas não tomava a iniciativa. Quando chegavam numa reunião, fazia um rápido levantamento dos presentes. Essa eu beijo duas vezes, essa três, esse me beija, esse não me beija, aquele já está me beijando quatro vezes...
Na outra noite, numa
recepção de casamento, a mulher comentou:
– Você enlouqueceu?
– Me descontrolei, pronto.
– Você beijou todo o mundo.
– Todo o mundo estava beijando todo o mundo.
– Mas beijo na boca?
– Foi só um.
– Mas logo o padre?!
Tomado por uma espécie de frenesi, depois de beijar uma fileira de conhecidos e desconhecidos, ele dobrara o padre pela cintura e o beijara longamente, como no cinema antigo.

Tim tim por tim tim - Francisco Bosco



Como disse o poeta Augusto de Campos, “João trata as vogais como Pelé trata a bola”

“Se fosse possível imaginar uma estética do prazer textual, seria preciso incluir nela: a escrita em voz alta”, escrevia, em voz baixa, Roland Barthes, nos anos 1970, para em seguida lamentar: “Essa escrita vocal (...), não se a pratica”. Tal como imaginada por Barthes, essa arte ignoraria a clareza das mensagens, o teatro das emoções, todo a dimensão, em suma, do sentido e da comunicação — seu campo de manobras seria antes fonético: “um texto onde se pudesse ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a volúpia das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda”. Compreende-se por que Barthes afirmava que essa arte não era praticada: ele não conheceu João Gilberto. Pois o baiano de Juazeiro, como uma espécie de Flaubert falado (e feliz), levou a arte da escrita em voz alta a um ponto sem precedentes, e ainda sem sucessores.

Esse aspecto da arte de João Gilberto é — como outros igualmente fundamentais de sua criação — minuciosamente investigado no documentário “Tim tim por tim tim: a música de João Gilberto”, cujo roteiro é do cancionista e pesquisador Paulo da Costa e Silva. Com quase quatro horas de duração, o doc é apresentado pelo cancionista Romulo Froes e apresenta depoimentos da maior parte dos principais estudiosos daobra de João Gilberto. Embora tenha sido produzido por mim, para a rádio Batuta (www.ims.com.br/radiobatuta), sinto-me desimpedido de elogiá-lo, pois não sou o responsável por suas virtudes, e sim seu roteirista e seus entrevistados, que cumprem a promessa do título e revelam, com rigor demonstrativo, com quantos e quais paus se fez essa canoa que saiu da Bahia para ganhar o mundo.

Menos explorado, talvez, nas obras críticas que já lhe foram consagradas, o aspecto da operação com a língua no canto de João Gilberto receberá aqui meu destaque. Trata-se de uma arte dentro da arte, pois a construção do canto de João envolve outras decisões, fundamentais, de princípio. Como explica o preparador vocal Felipe Abreu, “é um canto naturalista, cujo parâmetro é se aproximar da fala. E isso vem desde uma utilização de uma tessitura muito próxima a da fala — quer dizer, com muito poucos agudos, mas numa região que mais ou menos um homem tem falando, até a questão da articulação e da enunciação do texto muito próxima àquela da fala”. Tais princípios remontam aos dois grandes precursores do canto falado na canção popular brasileira, Mario Reis e Carmen Miranda, que cantavam com pouco volume, articulando sílaba por sílaba com precisão milimétrica e esvaziando o pathos das canções (em Carmem, desde a escolha do repertório).

Mas as diferenças são claras e decisivas. Como esclarece Paulo da Costa e Silva, Mário canta staccato, João canta legato. Ou seja: Mário canta dividindo; João canta ligando. “Cantar em legato significa amaciar a transição de uma nota para outra, criando um traço de união entre elas. Mário Reis fazia o oposto: cantava separando. Com isso, obtém uma espécie de pontilhismo musical. A frase melódica é percebida como uma série de sílabas autônomas, que não variam muito em duração. De fato, raramente ouvimos Mário Reis sustentar por muito tempo uma mesma nota. Em João ocorre justamente o contrário: seu canto explora ao máximo a elasticidade das vogais. A frase melódica é percebida como um fluxo contínuo, um rio vocálico eventualmente bloqueado pela presença das consoantes.” Aqui é que o trato com a língua atinge o estatuto de ourivesaria.

João explora todas as potencialidades rítmicas e melódicas das consoantes oclusivas, como “p”, “t”, “k” (que, percussivas, interrompem o fluxo sonoro, recortando-o), das sibilantes (também percussivas, mas ao modo de instrumentos como o ganzá) e das vogais (em que o canto se dilata e a voz pode deslizar macia de nota a nota numa mesma emissão). Todo cantor joga com essas características, mas João joga especialmente bem: como disse o poeta Augusto de Campos, “João trata as vogais como Pelé trata a bola”. Na arquitetura sonora de João Gilberto, explica Paulo, “as vogais formam extensos vãos horizontais, livres, soltos no espaço. Eventualmente apoiados sobre pilares de consoantes”. Do mesmo modo, as consoantes são mobilizadas em toda a sua potência rítmica. Em “Pra que discutir com madame”, por exemplo, João comprime as vogais das palavras “discutir com”, fazendoas soar como um composto de chocalho, caixa e surdo: pra que “dz-k-tch-com” madame. Felipe Abreu arremata: “Vogais e consoantes são as cores e os traços com que ele pinta seus quadros. Quer dizer, a expressão do canto dele, muito mais do que em relação a agudos, potência, dinâmica vocal entre fortes e fracos, vem da utilização das cores das vogais e das consoantes para criar a palheta que ele usa no canto.”

Essa pintura, João a exercita mesmo quando em língua estrangeira. O ensaísta Lorezo Mammì comenta sua interpretação de “Estate”, canção italiana registrada no álbum “Amoroso”: “Ele não faz nenhum erro, mas parece que ele dissecou, encontrou exatamente para a linha melódica se aquele ‘o’ tem que ser um pouquinho mais aberto que ele é, se ele deve dar uma amolecida naquela consoante... Parece um italiano que passou por um filtro e foi reconstituído pedacinho por pedacinho.”

Enfim, eis aí uma bela recompensa para aqueles que, como eu, se desencorajaram diante dos altos preços da turnê — agora adiada — de João Gilberto.
 
http://sergyovitro.blogspot.com/2011/11/tim-tim-por-tim-tim-francisco-bosco.html
 
 
 

el amor no tiene fronteras...






Ensaio Sobre a Cegueira


Ensaio sobre a Cegueira é um romance do escritor português José Saramago, publicado em 1995 e traduzido para diversas línguas. A obra se tornou uma das mais famosas de seu autor, juntamente com Todos os nomes, Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo.


Aos olhos de Saramago (autor):

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

Resumo/contexto da obra literária:

Esta obra, de José Saramago, faz uma intensa crítica aos valores da sociedade, e ao que acontece quando um dos sentidos vitais falta à população.
A cegueira começa num único homem, durante a sua rotina habitual. Quando está sentado no semáforo, este homem tem um ataque de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro que uma cadeia sucessiva de cegueira se forma… Uma cegueira, branca, como um mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente em forma de epidemia. O governo decide agir, e as pessoas infectadas são colocadas em uma quarentena com recursos limitados que irá desvendar aos poucos as características primitivas do ser humano. A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo governo e depressa o mundo se torna cego, onde apenas uma mulher, misteriosa e secretamente manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão causados, presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na obra: poder, obediencia, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjulgados. Nesta quarentena esses sentimentos se irão desenvolver sob diversas formas: lutas entre grupos pela pouca comida disponibilizada, compaixão pelos doentes e os mais necessitados, como idosos ou crianças, embaraço por atitudes que antes nunca seriam cometidas, atos de violência e abuso sexual, mortes,…
Ao conseguir finalmente sair (devido a um fogo posto na camarata de uma grupo dominante, que instalara ainda mais o desespero controlando a comida a troco de todos os bens dos restantes e serviços sexuais) do antigo hospício onde o governo os pusera em quarentena, a mulher que vê depara-se com a ausência de guarda: “a cidade estava toda infectada”; cadáveres, lixo, detritos, todo o tipo de sujidade e imundice se instalara pela cidade. Os cegos passaram a seguir os seus instintos animais, e sobreviviam como nômades, instalando-se em lojas ou casas desconhecidas.
Saramago mostra, através desta obra intensiva e sofrida, as reacções do ser humano às necessidades, à incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono. Leva-nos também a refletir sobre a moral, costumes, ética e preconceito através dos olhos da personagem principal, a mulher do médico, que se depara ao longo da narrativa com situações inadmissíveis; mata para se preservar e aos demais, depara-se com a morte de maneiras bizarras, como cadáveres espalhados pelas ruas e incêndios; após a saída do hospício, ao entrar numa igreja, presencia um cenário em que todos os santos se encontram vendados: “se os céus não vêem, que ninguém veja”…
A obra acaba quando subitamente, exatamente pela ordem de contágio, o mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro. No entanto, as memórias e rastros não se desvanecem.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_Cegueira)



“Ensaio Sobre a Cegueira” e “A Caverna” continuam a ser os livros de José Saramago mais populares nos Estados Unidos e têm estado “continuamente a ser reeditados”, segundo a presidente da Fundação Saramago.

“José & Pilar”
De Lisboa, Pilar del Río trouxe o livro “José & Pilar”, a lançar em breve em Portugal pela editora Quetzal, com diálogos e entrevistas inéditas não incluídas no filme homónimo, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, candidato português à nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro.

Para Pilar del Río, o filme tem um caminho “muito difícil” para os Óscares 2012, mas alcançar a nomeação e o troféu seria o “triunfo da qualidade e da beleza sobre a estratégia industrial”.

“Estamos a competir para o Óscar com uma indústria muito séria, muito rigorosa, multimilionária. E este é um filme feito por uns miúdos, sem mais apoio, sem indústria, sem ninguém por detrás. Se este filme ganhar o Óscar, será o triunfo da qualidade e da beleza sobre a estratégia industrial”, diz Pilar del Rio.

Com a presença do realizador Miguel Gonçalves Mendes, o evento “Emptiness, Silence” (“Vazio, Silêncio”) decorreu no domingo na galeria Sonnabend, onde foram mostradas fotografias de Rita Barros, que acompanhou o casal Saramago numa visita à cidade em 1996, e também da alemã Cândida Höfer sobre Portugal.

Já no final, Pilar del Río tomou a palavra para dizer que “o grande homem e intelectual Saramago” se enganou quando disse que “morrer é ter estado e já não estar”, pois ele “está cada vez mais vivo e é mais necessário”.

Pilar del Rio contou que quatro dias antes de morrer, quando já estava “um pouco ausente”, José Saramago disse a um grupo de amigos, reunido para festejar os 24 anos de união do casal, que a crise actual “não é económica, é moral, uma crise moral que vamos pagar economicamente”.

“Deu-nos a última lição, de olhar mais longe e ir mais além”, referiu a jornalista e tradutora da obra de Saramago.

Os cidadãos, disse, podem “fazer muito mais”, têm “muito poder” e a única questão é acreditarem em si mesmos.

“Saramago é um imprescindível. Está nos corações dos leitores, mas está também porque é necessário, porque precisamos de pensamento, porque, se continuamos a viver sem pensar, estamos a encaminhar-nos para o precipício e falta-nos pouco para cair”, adiantou.

A “Semana de Saramago” decorre num país que o escritor criticou duramente durante a administração Bush, e que hoje vive movimentos de protesto de indignados em vários pontos, o maior dos quais não muito longe do sítio onde decorreu a leitura de textos de domingo - Ocuppy Wall Street, na baixa de Nova Iorque.

Para Pilar, Saramago “já escreveu sobre o que está a acontecer agora no mundo, em Wall Street e noutros lugares”: “O livro chama-se ‘Ensaio sobre a lucidez’. Aí está tudo escrito”, disse à Lusa.

http://www.publico.pt/Cultura/caim-de-jose-saramago-com-grande-acolhimento-1519020