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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A maldição da garoupa

 

FABRÍCIO CARPINEJAR -



Eu ria do meu amigo Manoel. Avarento que só vendo. Sua tática era carregar uma nota de cem reais como desculpa para não pagar nada pela frente.

Não é que ele não tivesse dinheiro, o coitadinho não contava na hora com notas menores.

Diante do estacionamento, ele me dizia: “Paga para mim que não tenho troco”. Na banca de revistas, “paga para mim que não tenho troco”. Depois de uma cerveja, “paga para mim que não tenho troco”.

A garoupa salvava seu zoológico. Eu gastava tudo.

Salafrário! Sua companhia me multava como um Ibama. Sua companhia me convertia num traficante de animais. Meu Pantanal financeiro morria a seu lado, à míngua de água. Dos meus bolsos, ouvia os últimos suspiros da tartaruga-de-pente, da garça, da arara, do mico-leão-dourado e da onça-pintada. Não restava uma pena, uma escama, para reconstituir a história de minha generosidade.

Ele terminava o dia sem gastar um vintém. Lustrava o porquinho comigo, preservava a poupança. E ainda dissimulava a mesquinhez com simpatia filantrópica. Em sua concepção, facilitava a vida dos comerciantes ao não tirar o dinheiro miúdo da caixa registradora. Apelidei Manoel ironicamente de Lei do Troco, aquela do ônibus.

Apesar da minha raiva justificada, havia uma verdade sutil por detrás de sua atitude.

Manoel compreendeu a maldição da nota de cem reais. O fardo da nota de cem reais.

Todas as vezes em que levo a mais alta efígie da República, não posso usar.

É trocar a nota que a grana se vai num minuto. Some. Desaparece. Escorre para o ralo.

É magia negra. Algo inexplicável. Mais demorado gastar uma nota de R$ 20 do que uma de R$ 100. Os filhos farejam quando acabamos de desmembrar a quantia, as dívidas são informadas, as contas nos acham na rua.

Existem gnomos credores dentro da carteira, que devoram o cardume filhote da garoupa, deve ser isso.

Como um valor pode desaparecer momentaneamente? Vejo-me como vítima de um truque de prestidigitação, de um golpe de ilusionismo do Banco Central.

Você evita torrar os cem reais, faz solenidade, economiza a folhinha durante sete dias.

É comprar com ela uma cartela de aspirina que perde o controle da situação. Sobram R$ 98, quase a mesma coisa, quase. Mas o montante evapora em menos de duas horas.

Há uma imunidade parlamentar na cédula azul, que permite que ela resista mais. Quando vira outro bicho, desaparece.

Tanto que Eike Batista se recusa a carregar notas de cem reais. O homem mais rico do Brasil não é bobo de arriscar sua fortuna numa superstição.
 
 

FERREIRA GULLAR - Quando o bicho nos pegou

 

Nada impediu que o show "Opinião" se tornasse sucesso de público, a ponto de lotar com antecedência


Thereza Aragão e eu, com nossos três filhos, morávamos num apartamento da rua Visconde de Pirajá, 630, no trecho de Ipanema chamado Bar Vinte.
Nesse apartamento fui preso pela primeira vez, no dia em que os militares impuseram ao país o famigerado AI-5, mas, quatro anos antes, em meados de 1964, pouco depois do golpe, houve uma reunião, convocada por Vianninha (Oduvaldo Vianna Filho), que daria origem ao Grupo Opinião.
Ninguém naquela noite falou nisso, porém. O objetivo do encontro não era fundar um novo grupo teatral, mas, antes de mais nada, voltar à ativa após a liquidação do CPC da UNE pela repressão militar.
Além dos donos da casa e de Vianninha, participaram da reunião Armando Costa, João das Neves, Pichín Plá e Paulo Pontes, todos ex-integrantes da CPC, e mais Nelson Xavier, ligado ao Teatro de Arena de São Paulo.
O propósito do encontro era montar um show inspirado num disco que Nara Leão acabara de lançar (com capa de Jânio de Freitas) intitulado "Opinião".
Vianninha propôs fazermos um espetáculo musical que reunisse Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale -uma moça de classe média, um malandro do morro e um sertanejo nordestino. Até aí, tudo bem.
O problema é que, como tínhamos integrado o CPC, contra o qual os militares moviam um processo por subversão, não podíamos aparecer como produtores do espetáculo. A polícia o proibiria de imediato. Que fazer então?
Foi aí que alguém sugeriu pormos, como produtor do espetáculo, o Teatro de Arena. A sugestão foi aprovada, mas teria de ser aceita pelos companheiros do Arena. Feito o contato no dia seguinte, a proposta foi acolhida e, então, Vianninha, Paulo Pontes e Armando Costa começaram a inventar o show, que se tornaria a primeira manifestação pública contra o regime de 1964.
Certamente, isso não estava explícito no espetáculo, mas, entre canções e tiradas engraçadas, defendia-se a democracia e condenavam-se o latifúndio e a desigualdade social.
Tomada a decisão de escrevê-lo, surgiu a questão de onde montá-lo. Prevaleceu a sugestão de Vianninha: montá-lo no mesmo local onde o Teatro de Arena se apresentara no Rio em 1959, isto é, numa arena improvisada no shopping center da rua Siqueira Campos.
Fez-se contato com seu proprietário, o senador Arnon de Mello, e acertamos montar ali um pequeno teatro de arena na área originalmente destinada à instalação de uma boate.
Com uma grana que sobrara do CPC, mandamos fazer um estrado de madeira que serviria de palco. A plateia foi constituída pelas cadeiras do cinema de um tio de Vianninha que falira e nos chegaram cobertas de lama seca, pois haviam ficado meses ao ar livre, acumulando poeira, debaixo de sol e chuva.
Nós mesmos as lavamos e, com a ajuda de dois operários, as parafusamos e montamos. Por isso é que, durante os espetáculos, se alguém se mexia na cadeira, ela rangia, mas isso não impediu que o show "Opinião" se tornasse sucesso de público, a ponto de ter casas lotadas com um mês de antecedência.
Àquela altura, os milicos já se haviam dado conta de que aquilo era coisa de comunista, mas não se atreveram a tirar de cartaz um espetáculo com tal aprovação do público.
Em compensação, passaram a cortar e proibir quase tudo o que a classe teatral tentava montar. Depois de "Liberdade Liberdade", chegou a vez de montarmos outra peça nossa, que foi "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come", escrita com o propósito deliberado de criar uma obra que, por sua qualidade estética, ganhasse os censores.
E os ganhamos: a peça foi montada sem cortes e mereceu todos os prêmios do teatro brasileiro naquele ano de 1966. Lembro-me de tudo isso com saudade, não daquela época de repressão e medo, saudade dos amigos, dos companheiros e companheiras, do nosso e dos outros grupos teatrais.
Lembro-me também de um fato engraçado. Ambrósio Fregolente, que fazia o papel de um coronel em "Se Correr o Bicho Pega", passou a trocar a fala "Comi a mulher de Brás das Flores" por "Comi o Brás das Flores", o que comprometia o herói da peça. Fui encarregado de falar com ele sobre isso, mas sua reação foi inusitada. Começou a gritar: "Kremlin, Kremlin, os comunistas estão querendo me censurar!". É que dera para tomar umas e outras antes de entrar em cena.
 
http://sergyovitro.blogspot.com/2011/09/ferreira-gullar-quando-o-bicho-nos.html
 
 

'Rio' concorre ao Oscar

RIO - Real in Rio - Beginning and End of the Movie




 

Novelo

Mais perto. É isso. Mais perto do meu medo. Mais perto do meu desejo. É que, em certas noites, o coração brinca de ser fogueira e acende o riso. Tudo é luz em histórias de um dia outro que já sinto hoje. Eu adivinho abraços, podia usar no meu cartão de visitas. Em silêncios, antecipo sua mão, onde vou caber inteira. Sei miudezas, coleciono pequenos acertos: o próximo carro é azul! É que, em certas noites, essa pequena brasa insiste em bater em meu peito. Um exagero! leques acelerados e uma certa recriminação no tom. Não há comportas para o meu sentir. Extravaso. Escapo, agora. Sou maior. E mais só. Ainda brilho, mas só no escuro. E me espanto, às vezes, como quem vive. Apontam. Sou eu? Sou. Nem ligo. A tal brasa, acesa, morna, no centro do peito. Tem querer bem de todo jeito. O meu é feito noite de São João. Tem fogueira e festa, na rua, no céu, no corpo. Mas me antecipo. Não preciso dizer tudo. Ou não agora. Não preciso, repito, como se fosse uma certeza e não uma inquietação. Eu vou muito rápido. Epa! E já pus os pés pelas mãos e, ele, um pé atrás. Eu só queria dizer que não aprendi a fazer nós. Mas me calo, não me interessa quem não põe a mão no fogo do peito. Estou cansada. Cansada de me perder nas esquinas de um corpo que ainda não visitei. Trocamos memórias como se fossem segredos. Colecionamos o outro. Insistimos em mensagens que não se complementam. Não há encaixe, não há felicidade. Sim, preciso de mapa. Se te percorrer, me acho – e no momento que escrevo sei que é mais uma das fantasias que usamos pra não latejar tanto. Tento me convencer, armando castelos de cartas, bilhetes, telegramas, mails e sinais de fumaça: um, dois, três...era uma vez: eu. Toda vez. Outra vez. A distância. Gosto das distâncias. De diminuí-las. De transformá-las. Gosto das distâncias, de sabê-las, de encontrá-las para, a seguir, perder-me em encontros. Gosto de encurtar as distâncias, modificar geografias. Gosto de pensar: aqui. Mais, gosto de pensar-te: aqui. Eu queria colocar em um bilhete curto todas as saudades que eu ainda vou sentir, todo o querer que ainda vai pulsar, todo adeus que eu ainda vou chorar. Como já não consigo, suspeito felicidades e aprendo a soletrar desejo com as letras do seu nome.

 
 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

2012, it’s the Year of the Dragon - "Gong Xi Fa Ca!"


Happy Eve of Chinese New Year of the Water dragon!! 2012

 
 
At midnight on January 23, 2012, Chinese people around the world will welcome the new year, ushering in the Year of the Dragon.


Gong Xi Fa Ca! That’s the traditional Chinese New Year greeting that means “wishing you prosperity” in Mandarin. The first day of the Chinese New Year – which begins at midnight on January 23, 2012 – is the most important of Chinese holidays, celebrated by over 1.3 billion people in China and by millions of ethnic Chinese around the world. It’s a celebration that lasts for 15 days, culminating with the Lantern Festival. Each year is associated with one of twelve animals in the Chinese zodiac. For 2012, it’s the Year of the Dragon.
Current local time in Bejing
2009 Chinese New Year Parade in San Francisco featuring the traditional Chinese New Year dragon. Image credit: David Yu via Wikimedia Commons.
There are several variations on the mythology behind Chinese New Year celebrations. Most are based on a ugly bloodthirsty monster named Nian that would emerge on the last night of each year to destroy villages and eat people. A wise elder advised villagers to scare the monster away with loud noises. That night, they set fire to bamboo, lit fireworks, and banged their drums. The monster, afraid of the loud noises and lights, ran away to hide in its cave. In another version of the myth, an old man persuaded Nian to turn its wrath on other monsters, not the villagers. Before he was seen riding away on Nian, the old man, actually a god, advised the people to hang red paper decorations in their homes and set off firecrackers on the last night of the year to keep Nian away. On the first day of the new year, the villagers celebrated, greeting each other with the words “Guo Nian” which means “survive the Nian”, a tradition that has continued to this day to mean “celebrate the new year.”
In China, the familiar Gregorian calendar is used for day-to-day life. But Chinese calendar dates continue to be used to mark traditional holidays such as the new year and the fall moon festival. It’s also used astrologically to select favorable dates for weddings and other special events.
Traditional Chinese New Year Decoration. Image credit: Fanghong via Wikimedia Commons.
The Chinese calendar is a lunisolar calendar, in other words, a combination of solar and lunar calendars. It has a long history spanning several Chinese dynastic rules from as far back as the Shang Dynasty around fourteenth century B.C.. There are several different symbolic cycles within the calendar, used in Chinese astrology, that make it an intricate and complex measure of time.
A month in the Chinese calendar spans a single lunar cycle. The first day of the month begins during the new moon, when no sunlight falls on the lunar hemisphere that faces the Earth. A lunar cycle, on average, lasts 29.5 days, so a lunar month can last 29 or 30 days. Usually, there are 12 lunar months in a Chinese calendar year. In order to catch up with the solar calendar, which averages 365.25 days in a year, an extra month is added to the Chinese calendar every two or three years. As a result, Chinese New Year falls on different dates each year (in the Gregorian calendar) between January 21 and February 21.
Each year of the Chinese lunar calendar is represented by one of twelve animal symbols of the Chinese zodiac: Rat, Ox, Tiger, Rabbit, Dragon, Snake, Horse, Sheep, Monkey, Rooster, Dog, and Boar. For 2012, it’s the dragon’s turn. According to Chinese astrology, people born on the year of the dragon are said to be strong, self-assured, eccentric, intellectual, and passionate, among other things.
Traditional Chinese Dragon used in the dragon dance. Image credit: Caseman via Wikimedia Commons.
Chinese New Year celebrations traditionally lasts 15 days, from the first day (during a new moon) to the 15th day (a full moon). Each day holds a special significance that varies according to local traditions. But first, before the arrival of the new year, homes are thoroughly cleaned to sweep away ill fortune, and to welcome good luck. On new year’s eve, there are family gatherings to celebrate and enjoy sumptuous traditional feasts, and to greet the new year with fireworks at midnight.
Chinese New Year fireworks in Hong Kong. Image credit: Kroot via Wikimedia Commons.

In the days that follow, festive dance parades are held featuring colorful dragons or lions, ceremonies are held to pay homage to deities and ancestors, children receive money in red envelopes, gifts are exchanged, extended family members visit each other, and there’s more traditional feasting.
Chinese New Year red envelopes, used for giving money to children, at Dihua Market, Taipei, Taiwan. Image credit: BCody80 via Wikimedia Commons.
The celebration culminates on the 15th day with the Lantern festival; on this night of the full moon, families mingle in the streets carrying lighted lanterns, often creating a beautiful light display.
Lantern Festival night in front of the Chiang Kai-shek Memorial Hall in Taipei, Taiwan. Image credit: Philo Vivero via Wikimedia Commons.
Bottom line: The Chinese New Year for 2012 will be celebrated on 23 January. It’s the most important of Chinese holidays, celebrated by billions of people across the world. Festivities traditionally last for 15 days to culminate with the Lantern Festival. This calendar is based on a complex lunisolar calendar system that uses both lunar and solar cycles to mark time. As a result, Chinese New Year falls on different dates each year, between January 21 and February 21 of the conventional Gregorian calendar. Each Chinese lunar year is associated with one of twelve animals in the Chinese zodiac. For 2012, it’s the Year of the Dragon.

http://earthsky.org/human-world/chinese-new-year-2012-rings-in-year-of-the-dragon

 

Extravanca




Extravanca (os Dites 34 e João Frade) com o coreógrafo António Tavares e a bailarina Inês Melo Campos, 3 de Setembro de 2011, Praça da República, Tavira, Portugal.

Delicatto

[Imagem de coreografia de Pina Bausch]


é sublime
alegria refletida
em momentos de amor

é mistério
o destino repentino
de se dar e sentir dor

é criança
borboleta de um planeta
tão distante, sem calor

é poesia
palavras que se abraçam
alegria, destino, borboleta
e o sabor"

Ivan Petrovitch



Música John Surman - Edges Of Illusion


Nota: se puderem, ouçam até ao fim. Lendo o poema e olhando para a imagem, fica ainda melhor. Não há nada mais sublime que a mistura de música, poesia e movimento. Um post todo ele dedicado ao bailarino e coreógrafo Tó Tavares, uma das almas mais generosas que já conheci na vida.

Descobrir Belém foi o lucky break de Alex Atala

alex e priprioca by Ale Forbes ed


Muitos chefs — e o Alex Atala é o mais conhecido deles – andam fazendo uma cozinha contemporânea que valoriza a culinária regional brasileira, sobretudo a amazônica, que agora é oferecida aos gourmets em forma de mimosas criações gastronômicas encimadas por rococós de inspiração europeia.
É uma velha moda, que vai e volta. Se prestar atenção, verá que desde 1665 nossa comida satisfaz olhos e estômagos dos mais urbanos. Padre Antônio Vieira atestou, horrorizado, que a mesa belenense da época era puramente indígena, um festim permanente de peixes moqueados, caças e frutas da estação; os colonizadores portugueses, saciados, deitavam nus em suas redes.
Belém é um interessante caldeirão de misturas étnicas e gastronômicas. À base da comida indígena paraense – única verdadeiramente brasileira, segundo o filósofo José Arthur Gianotti – juntaram-se sabores africanos, portugueses, alemães, japoneses, libaneses, sírios, judeus, ingleses, barbadianos, espanhóis, franceses e italianos.
Não dá para endossar o exagero do escritor Márcio Souza, autor do inesquecível “Galvez, Imperador do Acre”, quando diz que a culinária amazônica é “uma prova da superioridade das civilizações indígenas”. Mas é claro que os povos que chegaram a Belém encantaram-se com a cozinha nativa e, aos poucos, foram incorporando os ingredientes locais às receitas de além-mar. Senão, vejamos.
Os judeus marroquinos ficaram maravilhados com a quantidade de peixes com escamas do rio Guamá. Por certo, riscaram do cardápio o filé de filhote (peixe de couro, popularíssimo na região) por causa das restrições alimentares, mas em Santarém celebravam a Páscoa com macaxeira frita ou cozida, cuscuz, tapioquinha, bolo de tapioca e pupunhas com doce de cupuaçu.
Libaneses e sírios são até hoje uma importante colônia em Belém e, pouco depois de surgirem rio adentro, no fim do século 19, como verdadeiros mascates fluviais – como se nas páginas dum romance de Milton Hatoum estivessem –, trocaram o pistache e as tâmaras pela castanha do Pará na receita de seus famosos doces folheados.
Africanos remanescentes dos quilombos popularizaram o gergelim nos doces e as múltiplas pimentas (murupi, camapu, olho-de-peixe, cajurana). A maniçoba que me foi servida pelas cuidadosas mãos do Alcides no melhor restaurante da cidade, o Lá em Casa, é um exemplo definitivo do casamento perfeito entre as raízes das cozinhas índigena e africana.
Os índios, óbvio, são mestres ancestrais no preparo da mandioca, caldeiradas, peixes (piranha, pirarucu, surubim, tucunaré, tambaqui), folhas (maniva, chicória, alfavaca) e frutas (bacuri, ingá, guaraná, açaí, ginja, biriba – dão deliciosos sorvetes).
Os ingleses chegaram durante o próspero ciclo da borracha, trazendo construções pré-fabricadas que viraram cartão-postal, como o mercado Ver-o-peso. Sua vocação culinária, sabemos, nunca foi uma brastemp mas, em compensação, os caribenhos de Barbados por eles empregados na construção civil legaram um interessante churrasco de peixe, o “peixe avoado”.
Por falar nisso, a cidade tem a segunda maior colônia nipônica do país e o sashimi, servido em bons restaurantes na cidade, é preparado com os peixes da região.
São comuns nas docerias de Belém as tortas de cupuaçu com queijo do Reino e os pastéis de Santa Clara com recheio da mesma fruta, duas adaptações saborosas das clássicas sobremesas portuguesas.
É uma velha moda, que vai e volta.
O professor Aldrin Moura de Figueiredo, do departamento de história da Universidade Federal do Pará, lembra que, no final do século 19, os belenenses endinheirados ofereciam a políticos e autoridades banquetes comandados por chefs franceses. Peixes, caças e frutas da estação com cobertura de mimosidades européias.
Até parece uma certa cozinha contemporânea chique que adaptou a culinária amazônica para o proveito dos comensais urbanos.

Leia mais:
Culinária Amazônica – O sabor da natureza, prefácio de Márcio de Souza (Editora Senac)

Soy loco por tí, America

 

Cuba já foi assunto sobre o qual todos tinham de ter uma opinião

O fascínio dos intelectuais brasileiros pela ausência de projeto político dos guerrilheiros que derrubaram Fulgêncio Baptista em 1959 é compreensível porque havia grande expectativa de que ali, pela primeira vez, pudesse surgir um socialismo equalitarista e não alinhado à URSS.
Eles partilhavam da simpatia expressa por figurões como Herbert Marcuse, Waldo Frank, Allen Ginsberg, Octavio Paz, Gabriel García Márquez e Julio Cortázar, entre outros. Mas a partir de 1965, com a fundação do PC cubano e a gradual institucionalização do modelo soviético na ilha, Fidel passou a mostrar sua vocação totalitária e muitos pensadores passaram de apoiadores a críticos do regime. Sartre foi um deles.
Já no final de da década de 60, quando o mundo intelectual só tinha olhos para a Revolução Cultural chinesa, o interesse dos brasileiros pela Ilha de Fidel continuou a crescer.
Em 1967, nos bastidores do 3º Festival da MPB da Record, o compositor José Carlos Capinam escreveu um poema em homenagem a Che Guevara, morto naquele ano, e pediu a Gilberto Gil que dele fizesse uma canção. Nascia — no auge da censura instituída pelo governo militar — a famosa declaração de amor à revolução cubana, Soy loco por tí, America.
As relações diplomáticas com Cuba estavam rompidas desde 1964 e os passaportes brasileiros traziam a advertência impressa “Não é válido para Cuba”. A lua-de-mel entre brasileiros e cubanos ficou interrompida durante anos.
Só a partir da segunda metade da década de 70, já no período de distensão política, voltou a crescer o interesse de artistas, escritores e jornalistas brasileiros pela ilha de Fidel, num momento em que parte da esquerda mundial repudiava o regime.
Surge então um número razoável de obras publicadas sobre aquele país, com enfoques e tons variados, alguns excessivamente laudatórios e outros com a acuidade científica das boas reportagens. Cuba, para o bem e para o mal, passou ser um assunto sobre o qual todos tinham de ter uma opinião.

Leia sobre Edward Pimenta aqui
http://epimenta.wordpress.com/about/


domingo, 22 de janeiro de 2012